Após o término do tratamento, pacientes podem ter um programa de acompanhamento psicológico e suporte interdisciplinar para aumentar a qualidade de vida pós-câncer. Saiba mais sobre o Survivorship
Em 2024, segundo dados da American Cancer Society, observamos um aumento da incidência no diagnóstico de câncer, mas com uma progressiva queda da mortalidade. Fato que pode ser explicado por dois motivos importantes: o aumento dos diagnósticos precoces possibilitados por programas de rastreamento (por exemplo, mamografia para câncer de mama) e o desenvolvimento de novas terapias.
Nos últimos anos, houve a liberação de novas moléculas para o tratamento do câncer, algumas delas com impacto importante para o controle e a cura da doença. A imunoterapia para tratamento do melanoma é um bom exemplo de como essas novas terapias podem impactar no prognóstico de doenças agressivas. Outros exemplos são as terapias-alvo específicas (pequenas moléculas que bloqueiam receptores que ficam na célula tumoral, permitindo uma melhor resposta) e, mais recentemente, os ADCs, que são caracterizados por serem uma combinação entre terapia-alvo e quimioterapia, também impactando no tratamento do câncer de mama metastático, por exemplo.
Temos, ainda, inovações importantes quando falamos de exames. Alguns deles nos ajudam em decisões importantes, como qual é a melhor terapia-alvo para alguns tipos de câncer ou se a paciente com neoplasia de mama luminal (tipo específico de câncer de mama) necessita de tratamento complementar com quimioterapia, por meio da análise de um escore de risco realizado com o tecido do tumor.
Esses avanços permitiram o aumento da taxa de cura dos pacientes e o melhor controle da doença metastática. Com isso, aspectos não muito discutidos no passado tornam-se fundamentais atualmente. Aspectos de autoimagem, humor, fertilidade e trabalho são exemplos importantes no planejamento do tratamento e acopmpanhamento do paciente oncológico, com um termo em inglês que aglutina todos esses conceitos: Sruvivorship.
Programa Survivorship
A maioria dos pacientes acredita que sua vida será totalmente diferente após o término de um tratamento oncológico, mas essas mudanças são diferentes entre os pacientes e, às vezes, surpreendentes.
Muitas vezes o seguimento após o término do tratamento traz ansiedade, mas, quando realizado um suporte multidisciplinar, a maior parte dos pacientes acaba encarando a vida de maneira mais positiva, fortalecendo laços com amigos e familiares. Uma experiência comum entre os pacientes é a sensação que o tratamento nunca acaba, incerteza sobre o futuro e o medo de a doença retornar. Dessa maneira, o cuidado com a saúde emocional deve estar presente desde o início do acompanhamento.
Outro aspecto importante é a fertilidade. Muitos dos tratamentos oncológicos podem alterar a fertilidade dos pacientes, impedindo ou dificultando a maternidade ou a paternidade, que para muitos pacientes é um aspecto importante no planejamento de vida. Atualmente, conseguimos com segurança possibilitar para pacientes pós-tratamento a realização desse projeto por meio do aconselhamento de fertilidade, que avalia qual é o melhor método de preservação. Sabemos, por exemplo, que mulheres que tiveram câncer de mama podem engravidar com segurança quando orientadas da maneira correta.
Alguns efeitos colaterais podem permanecer após o término do tratamento, como alterações na sensibilidade, alterações articulares e redução de movimentos dos membros após cirurgias, mas todos eles podem ser minimizados durante o seguimento. Algumas mudanças de hábitos podem trazer um importante impacto no controle dos sintomas. Um bom exemplo é atividade física, que, quando realizada sob orientação, ajuda no controle de sintomas como dores articulares e fadiga, no controle do peso e tem um impacto na melhora do humor.
É importante lembrar que participar de grupos de suporte permite o contato entre pacientes, possibilitando a troca de experiências, fundamental no entendimento de toda jornada do tratamento e pós-tratamento. O paciente deve manter seus planos de carreira e, principalmente, de vida. A ideia de que, em muitos casos, o tratamento será uma parte determinante na vida do indivíduo ajuda a motivá-lo a continuar com seus planos. Óbvio que isso se torna possível quando o paciente é orientado, ou em termos técnicos, “navegado” durante a jornada.
O tratamento oncológico deve ser encarado como uma maratona em que, durante o processo, o paciente terá todo um time dedicado ao cuidado e nunca estará sozinho. Esse time o ajudará a superar possíveis efeitos colaterais que podem permanecer após a finalização dessa jornada.
DR. AUMILTO AUGUSTO DA SILVA JUNIOR – ONCOLOGISTA DO HOSPITAL SANTA CATARINA – PAULISTA – CRM 137416
