Com projeções demonstrando que o câncer pode atingir 35,3 milhões de casos em 2050, a conscientização e prevenção se tornam ainda mais relevantes quando falamos do Dia Mundial do Câncer. Confira!
Celebrado em 4 de fevereiro, o Dia Mundial do Câncer foi instituído pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), como um chamado global à conscientização, prevenção e ação coordenada contra uma das doenças que mais impactam a saúde pública no mundo.
Os números relacionados ao câncer oferecem um panorama importante para a saúde pública e para o planejamento do cuidado. No Brasil e no mundo, os dados apontam tendências associadas ao envelhecimento populacional, a mudanças nos hábitos de vida e às condições de acesso ao diagnóstico e ao tratamento.
O câncer no mundo: a dimensão global de um desafio crescente
De acordo com dados da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), o mundo registrou cerca de 20 milhões de novos casos de câncer em 2022. Em 2024, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou projeções que indicam mais de 53 milhões de pessoas vivendo com diagnóstico recente da doença, considerando sobreviventes até cinco anos após o diagnóstico.
As estimativas também mostram que, ao longo da vida, uma em cada cinco pessoas poderá desenvolver algum tipo de câncer. Esses números ajudam a dimensionar a relevância do tema para a saúde pública global e reforçam a importância de estratégias contínuas de prevenção, rastreamento e acompanhamento.
Projeções para 2050
As projeções para as próximas décadas indicam um aumento significativo no número de novos casos de câncer em todo o mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a estimativa é que, até 2050, a incidência anual alcance cerca de 35 milhões de novos diagnósticos, o que representa um crescimento aproximado de 77% em relação a 2022.
Esse crescimento é impulsionado por três fatores centrais:
- envelhecimento da população global;
- urbanização acelerada e mudanças nos hábitos de vida;
- maior exposição a fatores de risco evitáveis, como tabagismo, obesidade, sedentarismo e consumo de álcool.
Tipos de câncer mais incidentes no mundo
Os cinco tipos mais diagnosticados globalmente concentram quase metade de todos os novos casos:
- pulmão (2,5 milhões de casos/ano);
- mama (2,3 milhões);
- colorretal (1,9 milhão);
- próstata (1,5 milhão);
- estômago (970 mil).
Esses dados reforçam a importância de políticas globais focadas na prevenção, rastreamento e controle desses tipos específicos.
O câncer no Brasil segundo o INCA
Estimativas nacionais
Mesmo em 2026, os dados oficiais mais recentes no Brasil são os da Estimativa de Incidência de Câncer no País para o triênio 2023 – 2025, publicada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Esses números apontam que o Brasil deve ter registrado cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano nesse período, refletindo tanto o impacto dos fatores de risco quanto às desigualdades de acesso ao diagnóstico. Os tipos mais incidentes incluem câncer de pele não melanoma, mama, próstata, colorretal, pulmão e estômago, que, juntos, representam mais de dois terços dos casos estimados no país.
A distribuição regional revela desigualdades importantes: aproximadamente 70% dos casos concentram-se nas regiões Sul e Sudeste, reflexo da maior densidade populacional, envelhecimento, urbanização e também do maior acesso ao diagnóstico.
A estimativa mais recente do INCA ampliou o escopo de análise, passando a contemplar 21 tipos de câncer, incluindo pâncreas e fígado – neoplasias menos frequentes, porém de alta letalidade.
Tipos de câncer mais incidentes no Brasil
- Câncer de pele não melanoma – 31,3% dos casos
- Câncer de mama – 10,5% (aprox. 73.600 casos/ano)
- Câncer de próstata – 10,2% (aprox. 72 mil casos/ano)
- Câncer colorretal – 6,5%
- Câncer de pulmão – 4,6%
- Câncer de estômago – 3,1%
Juntos, esses tipos respondem por mais de dois terços de todos os diagnósticos no país.
Desigualdades regionais e desafios de detecção precoce no Brasil
Os dados disponíveis sobre câncer no Brasil apontam para diferenças claras na distribuição e no impacto da doença entre as regiões do país, refletindo desigualdades estruturais no acesso à saúde e aos serviços de rastreamento.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer do colo do útero – que é associado à infecção persistente pelo vírus HPV – apresenta taxas de incidência mais altas no Norte e no Nordeste do que no Sudeste. Por exemplo, estimativas mostram que a taxa ajustada de novos casos no Norte foi significativamente superior à observada no Sudeste em 2022.
Essa variação regional não implica um “menor risco” nas outras regiões, mas indica padrões distintos de exposição aos fatores de risco, além de dados históricos de cobertura desigual de rastreamento e vigilância em várias partes do país.
Já para o câncer de mama, de acordo com o INCA, embora seja o tipo mais diagnosticado entre mulheres brasileiras (excluindo câncer de pele não melanoma), há variação nas taxas de mortalidade e acesso ao rastreamento. Relatórios recentes apontam que o Sudeste e o Sul concentram as maiores taxas de incidência e mortalidade, enquanto regiões como o Norte do país enfrentam desafios adicionais de acesso e continuidade do cuidado.
Esses padrões refletem diferenças no acesso a serviços de saúde, diagnósticos mais precoces e continuidade terapêutica entre as regiões brasileiras, que ainda precisam ser melhorados por meio de políticas públicas e ações focalizadas.
Diagnóstico precoce e o papel do rastreamento no Brasil
O diagnóstico precoce é um dos pilares na luta contra o câncer, pois aumenta significativamente as chances de cura e reduz a mortalidade associada à doença. No Brasil, apesar dos esforços em campanhas e programas públicos, os dados indicam que a cobertura efetiva de exames de rastreamento continua abaixo do ideal, impactando a detecção em estágios iniciais.
O rastreamento efetivo é fundamental, pois tumores detectados em fase inicial tendem a ter tratamentos mais eficazes e menos agressivos, aumentando as chances de sobrevida. Isso vale tanto para o câncer de mama quanto para outros tipos em que há exames apropriados.
Comparativos internacionais: uma abordagem baseada em evidências
Os dados internacionais sobre diagnóstico precoce do câncer variam conforme o tipo da doença, as estratégias de rastreamento adotadas e a forma como os sistemas de saúde são organizados em cada país. Por isso, não existe um único indicador que permita comparações diretas e universais entre diferentes nações. De modo geral, países com programas de rastreamento bem estruturados tendem a identificar uma proporção maior de casos em estágios iniciais, o que favorece melhores possibilidades de acompanhamento e tratamento ao longo do tempo.
No Brasil, o rastreamento ainda ocorre, em grande parte, de forma oportunística, dependendo da busca individual pelos serviços de saúde. Esse modelo contribui para diferenças na detecção precoce quando comparado a países que adotam programas populacionais organizados. Diante desse cenário, a literatura especializada mostra que ampliar a organização e a cobertura de exames como mamografia e Papanicolau é uma estratégia central para reduzir desigualdades no diagnóstico e fortalecer os resultados em saúde no país.
O que se sabe, com base em literatura científica e relatórios de organizações como a American Cancer Society e publicações de vigilância epidemiológica, é que:
- países com programas de rastreamento amplamente organizados, como muitos países de alta renda, tendem a detectar uma proporção maior de tumores em estágios precoces, o que se traduz em melhores taxas de sobrevida geral.
- No Brasil, a implementação de rastreamento ainda é, em grande parte, oportunística, ou seja, depende da procura individual por serviços, o que leva a uma proporção menor de diagnósticos em fases iniciais quando comparado a países com sistemas de rastreamento estruturados.
Portanto, a literatura recomenda que aumentar a organização e cobertura dos programas de rastreamento (mamografia, Papanicolau etc.) é uma das principais estratégias para reduzir desigualdades no diagnóstico e melhorar os resultados de saúde no país.
Fatores de risco: o que pode ser evitado?
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), uma parcela significativa dos casos de câncer pode ser evitada por meio de ações de prevenção e de estratégias voltadas ao diagnóstico precoce.
Os principais fatores incluem:
- tabagismo (associado a mais de 15 tipos de câncer);
- obesidade e sedentarismo;
- consumo de álcool (não há nível seguro);
- alimentação inadequada, especialmente carne processada;
- exposição solar sem proteção;
- infecções preveníveis, como HPV e hepatite B.
A vacinação contra HPV e hepatite B, disponível no SUS, tem potencial de prevenir milhares de casos de câncer, mas a queda recente na cobertura vacinal representa um risco adicional.
Diagnóstico precoce como estratégia essencial de cuidado
Quando detectado precocemente, o câncer pode ter chance de cura superior a 90% em alguns tipos. Mamografia, Papanicolau, colonoscopia e exames clínicos regulares são ferramentas fundamentais, desde que acessíveis, oportunas e integradas a um sistema de cuidado contínuo.
No Brasil, os principais desafios seguem sendo:
- acesso desigual aos exames;
- longos intervalos entre rastreamento e confirmação diagnóstica;
- baixa adesão aos programas preventivos.
Avanços no tratamento: a Oncologia em transformação
A Oncologia moderna vive uma revolução com:
- imunoterapia, que ativa o sistema imunológico contra o câncer;
- terapias-alvo, baseadas no perfil genético do tumor;
- medicina de precisão, com tratamentos personalizados;
- cirurgia robótica, mais precisa e menos invasiva.
Esses avanços aumentam a sobrevida e melhoram a qualidade de vida dos pacientes, mas ainda enfrentam desafios de acesso, especialmente em países de renda média como o Brasil.
Mais do que uma data: um compromisso coletivo
O Dia Mundial do Câncer reforça que enfrentar a doença exige informação, prevenção, diagnóstico precoce, acesso ao cuidado e políticas públicas eficazes.
Transformar números em vidas salvas depende de escolhas individuais, ações institucionais e compromisso contínuo da sociedade. O combate ao câncer não acontece em um único dia, é uma construção permanente.
